Aconteceu: O Pedro teve piolhos e isso desencadeou o seu maior trauma, até hoje.  Na passada semana chegou uma carta na mochila dizendo que alguns miúdos da escola tinham e, por isso, deveríamos estar atentos aos nossos filhos. Ora, assim fiz: Nessa noite andei à procura, mas nada me pareceu ver. De todas as formas achei que seria mais prático cortar-lhe o cabelo,  até porque já estava num comprido nível “Noel Gallagher no arranque de carreira”. O Pedro achou uma óptima ideia, por isso, lá fomos, a caminho do barbeiro de sempre. Acontece que, quando lá íamos, deparámos com um cabeleireiro mesmo ao lado da nossa casa e decidimos, os dois, experimentar (sou fã de comércio local, ou seja,  local-izado mesmo ao pé de onde vivo). A cabeleireira, cumpridora do agradável jackpot ” simpática e empática com crianças”, percebeu que os fios de cabelo dele estavam pejados de bichos e aconselhou a cortar tudo.  E eu, mãe sem alguma experiência nesse assunto e,  vendo a boa relação de amizade que se estava a desenhar entre ela e o Pedro, achei boa ideia seguir o palpite e deixar o cabelo bem curtinho.  Palavra que nem me passou pela cabeça que pudesse acontecer o que, de facto, aconteceu.  A simpática cabeleireira começa a aparar, o Pedro está feliz  a ver a novidade a acontecer, até que gira o pescoço e olha para baixo . E vê. Vê os seus longos fios de cabelo caídos no chão,  e dá-lhe um gigantesca e inesperada nostalgia pelo seu cabelo antigo . De repente pede à menina para parar de cortar, e diz que detesta o seu novo corte, e  daí passa a chorar como nunca o vi, com imponentes lágrimas caindo-lhe dos olhos.  O Pedro é uma criança a quem tudo lhe passa com tremenda rapidez. Obviamente chora quando é contrariado ou está triste, como todas as outras, mas é bastante célere (um minuto já é muito tempo para ele)  a forma como ultrapassa o desgosto, distraindo-se com qualquer outro assunto. Daí ter ficado tão consternada quando ele salta da cadeira onde está, vem para o meu colo e me diz, com a maior mágoa do mundo: “Quero o meu cabelo de volta, mamã, por favor, traz-me o cabelo de volta”.  A frase saiu-lhe com uma tristeza profundíssima. Não sabia o que lhe dizer, o cabelo não havia de voltar, disso tinha a certeza, e por mais que lhe explicasse a quantidade de bicharada de que se tinha livrado, a dor não passava. Eu própria já estava a sofrer a olhar para aquele cabelo todo no chão. Pedi à rapariga, num sinal escondido, que varresse tudo aquilo a ver se, com a prova do crime destruída, o desgosto passava, mas não. O Pedro esteve, sem exagero, meia hora a soluçar, a dizer que a culpa era minha porque podia ter, apenas, metido uma loção qualquer para que os piolhos fossem embora, sem ter que lhe cortar o cabelo que ele tanto adorava.  E eu a ficar com um sentimento de culpa cada vez maior, com a cabeleireira, cúmplice do assassinato, mergulhada em cargo de consciência também.  Finalmente consegui sair dali, com ele algo mais calmo, mas vermelho que nem uma cereja. No entanto, assim que entramos em casa, o estupor do espelho deu-lhe o reflexo e  a sessão de choro voltou com a agravante de ter, ainda, frases apocalípticas como: “Não quero voltar à escola até que o meu cabelo volte a crescer” ou “Não quero que nunca mais, na vida,  ninguém me veja”.

Minhas Ideias - 30 Quero acreditar que sou uma mãe tão forte como qualquer outra, ultrapassei três anos de cólicas com valentia, achaques de saúde normais de qualquer bebé sem qualquer melindrice, quedas perigosas com galhardia e não me assusto com feridas, por mais horrorosas que sejam mas, de nenhuma forma, estava preparada para o primeiro verdadeiro desgosto de alma da vida do meu filho.  Na primeira noite dormiu de gorro, no dia a seguir só o tirou em casa e comigo, e só alguns dias depois é que foi aceitando o seu cabelo curtinho como algo normal, mas ainda hoje me disse: “Prometeste que crescia rápido, já passou uma semana e está igual!”. Agora não sei o que faça, mas, eventualmente, terei que me habituar à ideia de que terei um John Lennon em casa. Entretanto os piolhos desapareceram nessa mesma tarde.

O Pedro, protagonista do relato, fez questão de deixar o seu auto-retrato antes da tragédia.

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