unnamed-2 (1)Hoje foi já o terceiro dia em Marrocos e o que, na verdade, foi mais proveitoso para conhecer cidades, natureza,  comidas e tentar aprender umas minúsculas palavras em árabe.
Ontem o programa foi bem mais pacato pois o plano era dar uma volta em barco, tendo em conta que estamos em zona de mar, só que o vento e a agitação marítima fizeram recuar parte do grupo. Portanto, o que sucedeu é que o dia não foi propriamente usado para andanças mas para algo que também muito prezo quando estou com estes níveis de cansaço acumulado: Não fazer absolutamente nada. E que coisa estranha essa de não se ter coisas para fazer. A minha vida é, todos os dias, tão cheia de tarefas por cumprir que quando, de repente, não existe isso, fico à toa. Conhecem a sensação? A inquietude de não se saber como usar o tempo livre? O não se fazer nada é, também, uma arte, creio. Custou-me de início preencher esse espaço vazio, sentada à beira de uma piscina, num incrível resort, a olhar para o infinito., mas, digo-vos, sabe bem e acostumava-me a ter um ou dois dias disto por semana. Os dromedários, entretanto, continuam a passar pela janela do meu quarto todas as tardes, pois há um spot de ervas de que eles devem gostar, mesmo em frente. É engraçado ficar a vê-los comer, enquanto olham placidamente o mar, e piscam os olhos com as suas grandes pestanas (disse-vos que não tinha nada para fazer, certo?). Ahh, já agora, para quem perguntou, em relação ao post anterior, estou hospedada no hotel Be Live Collection Saidia. 

Bom, hoje, terceiro dia, arrancámos cedíssimo para conhecer a cidade de Berkane, a mais próxima do hotel, e um dos paradeiros das IMG_0784cegonhas que se instalaram numa praça que sobrevoam  ininterruptamente. Vale a pena parar lá e observar. Até porque a mesma praça é um dos paradeiros dos “berkanenses” (e é onde estou, precisamente, na fotografia ao lado). A cidade é povoada por agricultores,  o grande potencial da zona. Aliás, a estrada até lá rasga planícies verdes cultivadas até perder de vista. Berkane é, também, grande zona de clementinas e, sobretudo,  de laranjas, daí a companhia do cheiro a laranjeiras em  parte do trajecto. A néspera é rainha da zona, também. São árvores e mais árvores com a frutinha pendurada dos ramos.

Entretanto tudo isto acontecia no meio das impressionantes montanhas de Beni Hassen que outrora albergaram, nas suas grutas,  unnamed-10revolucionários que travaram luta para independizar Marrocos. É possível visitar uma delas, a gruta de Chameau (a gruta do camelo), chamada assim pela forma de bossa que tem a parte alta da montanha que a protege. Esta galeria interior é a única que, neste momento, se pode percorrer de forma totalmente segura, pois foi toda iluminada e trabalhada nesse sentido. Vale a pena, embora para o fazer tenham que tratar de tudo com alguém previamente (no hotel ou com o guia) pois o controlo de entrada é feita por um senhor que habita as montanhas desde que nasceu e que, literalmente, tem a chave da gruta (e que pode não estar por lá quando vocês chegarem se não combinarem antes). Não  consegui perceber a idade do marroquino porque,  por um lado falou-nos de ter nascido algures nos anos 30 mas,por outro, não tinha rugas e subia escadas com tremenda agilidade. Mistérios da montanha. Aqui está  numa foto tirada após ter fechado a porta de entrada com, pelo menos, 3 cadeados. A Sandra Celas também apreciou a jovial tranquilidade e simpatia do guardião da gruta.

 

As montanhas ainda levam o seu tempo a visitar, há paragens para observar planícies e árvores, zonas de pic-nic com famílias à volta das toalhas de quadradinhos, produtos vendidos na estrada e algumas localidades  penduradas na encosta. Uma delas é  a pequena aldeia Tafoughalt, que me parece obrigatório conhecer se vierem para estas paragens. É uma das memórias mais bonitas que levo daqui porque, em contraste com o amarelo das paisagens marroquinas, as cores dominantes são centenas de variantes de verde.

FullSizeRenderComo lugar marroquino que se preze, tem um mercado. Não é de uma décima do tamanho do mercado que visitaria no dia seguinte mas, como era o primeiro que visitava por cá, fiquei encantada a um ponto infantil. Não nos faltam feiras em Portugal, bem sei, mas é a fantasia de ver sacos e sacos de especiarias, folhas, frutos secos, e o cheiro… O cheiro. O nordeste marroquino não é uma zona demasiado visitada por turistas, apenas alguns espanhóis de Melilla aparecem por cá e na época alta, o que dá alguma pureza ao relacionamento desta gente com os visitantes. Apenas nos olham com bastante curiosidade, sorriem, e nos oferecem alguns produtos para experimentar. Não há nenhuma pressão para vender e , contrariando o que todos ouvimos de Marrocos, pouquíssima margem para negociar. De lá levei o famoso óleo de aragan. E porque? Porque um dos nossos guias, chamado Saad,  assegura, a pés juntos, que a sua carinha laroca e jovem é conservada com este produto milagroso quando ele, na verdade, tem 65 anos.  Saad afirma que o óleo de aragan mantém os cabelos fortíssimos e brilhantes.  Ainda não experimentei o dito cujo mas, o guia diz-nos também, é melhor compra-lo na zona de Marrakesh porque é muito mais puro (ele também promete que nos vai enviar para Portugal, fico à espera para vos dizer se, de facto, aquilo no seu estado mais puro rejuvenesce uma senhora).

E a comida? Soberba quando cozinhada por gente daqui. Experimentei o melhor couscous da minha vida num dos vales das montanhas. Deixando de lado o frango que, tipicamente, vem a acompanhar, endoideci com todo o rol de legumes cozinhados a vapor. As courgettes, cenouras, couve (aqui come-se muita), tudo tem um sabor diferente, talvez quem viva no campo não sinta tanta diferença mas eu toquei o céu com o paladar, asseguro. O pão é óptimo porque tem pouco fermento e é mais fino e menos massudo.  Os vegetarianos estão mais que à vontade, embora se cozinhe bastante carne e peixe, há sempre pratinhos de verduras muito bem condimentadas e até se pode experimentar coisas novas como, por exemplo, o hábito de comer parte das folhas da alcachofra molhadas em limão (tão mas tão bom!).  O vinho é bom, também. Apenas experimentei um copito e nem sequer consegui perceber qual a marca mas era saboroso e suave (mais não vos sei dizer, enófilos)

Outra das “especialidades” da zona nordeste é a música reggada, originária do povo berbere e  altamente festiva. Vale muito a pena unnamed-9tentarem apanhar um grupo que vos mostre as danças e os instrumentos típicos. A reggada pode ter, ou não, um cantor. O que tem sempre  é uma espécie de mestre de cerimónias que dança com um bastão (antigamente era uma espingarda) e que mexe pés e ombros com um grande estilo. A acompanhar estão músicos de instrumentos característicos: A gaita, o tambor e a flauta berbere. Tive oportunidade de ver ,durante a tarde,  um pequeno grupo de reggada e, claro, tive que dançar com eles, aliás, parece ser hábito que o bastão seja dado a alguém para que acompanhe a dança, e nada de recusar. Reparem, na fotografia, como o mestre de cerimónias, usa fato e gravata por baixo da túnica branca.

Até agora, e com tudo isto, não apanhámos nem um português. Parece que somos os únicos por cá. Até à minha partida verei se encontro algum conterrâneo. Queria despedir-me dizendo que o bom tempo continua, que está calor mas não muito, e que darei um mergulho por todos vocês. Até amanhã