Uma das razões pelas quais não me custou horrores mudar de alimentação é por gostar de quase tudo e daí, reconheço, não ter tido grandes problemas em me acostumar a novos sabores largando os de toda a vida. Agora, se há coisa que sim, me doeu escutar foi o quão nocivo é, para a saúde física e emocional, o açúcar. Todos sabemos desde que somos crianças  que os doces nos estragam os dentes, que nos engordam e que, vá, nos fazem mal. Agora, penso que não existe verdadeira consciência da quantidade de açúcar que metemos no corpo por dia e até que ponto é, mesmo mesmo, nefasto.

Sabem? Eu era pessoa para aspirar uma caixa de “After eight” num quarto de hora, e uma embalagem de “Donettes” (lembram-se?) durava nas minhas mãos uns 20 minutos, não mais.  E depois os cafés que bebia por dia com respectivo pacotinho  e ainda as sobremesas em todas as refeições. Ahh, e um bolo que era a minha predileção e que, como não se encontra em todo o lado, cada vez que o via consumia com a desculpa de “sabe-se lá quando o vou voltar a apanhar”: A pirâmide (toda ela uma bombinha assassina) . Portanto, os meus níveis de açúcar eram inacreditavelmente bárbaros. Quase chorei e entrei em negação quando entendi que tudo isso tinha que acabar porque os argumentos apresentados fizeram sentido: diabetes, colesterol, menos poder de concentração, cansaço, depressão, descalcificação e até cancro, auchhhhhh, que dor!

Acreditem que senti muito orgulho em mim mesma quando decidi não tocar em doces até conseguir largar o vício. E sabem que mais? Passei a estar muito mais relaxada, menos nervosa por tudo e por nada, comecei a sentir-me muito menos cansada e, sobretudo, deixaram de apetecer-me os doces como antigamente, porque, e isto são boas notícias, quanto melhor comemos, melhor queremos comer (infelizmente, o processo contrário também acontece).

E se noutras matérias alimentares  existem discussões acesas e estudos que defendem vários posicionamentos, na questão do açúcar parece-me que quase todos os  cientistas e estudos estão do mesmo lado da barricada: O açúcar de rápida absorção não traz nenhum nutriente ao corpo e está associado a imensas doenças (não só físicas como mentais).  Está ligado a acidez no estômago, a descalcificação, desmineralização, e vários estudos defendem que está relacionado com vários tipos de cancro (podem ler sobre este assunto aqui e aqui) ou então, visto de outra forma, vários estudos e organizações de investigação sobre esta doença o que defendem é que o açúcar está ligado ao excesso de peso e que esta obesidade está relacionada com o cancro (mais um artigo para ler sobre este assunto aqui).

E o mais incrível, e talvez não tão falado, é que o consumo de açúcar também afecta o nosso estado mental. O açúcar está de braços dados a estados de depressão e ansiedade que melhoram muito quando se diminui o seu consumo ( um círculo vicioso tramado de quebrar mas que é possível). Quem o defende, por exemplo, é a “Pshycology Today”, uma das revistas mais lidas nos Estados Unidos pertencente à Associação de Psicologia Americana e que escreveu imensos artigos sobre o assunto como este aqui e até incluiu, numa das suas edições,  um vídeo elucidativo que se pode ver aqui .

Portanto, o que continuamos a fazer com os nossos corpinhos comendo doces que nem doidos?  Pão branco, gomas, refrigerantes, sumos, batatas fritas, comida pré-cozinhada, pastelaria, chocolates, bolachas, alguns tipos de leite, molhos de supermercado, pickles. O horror, o açúcar está em todo o lado e nós estamos viciados no sabor.   E com tudo isto, é possível evita-lo? Sim, é possível.  E falo, como quase sempre neste blog, por experiência própria porque eu  já o fiz quando tive conhecimento do mal que fazia. Passei a comer cereais integrais, vegetais, pão sem açúcar, café sem nenhum tipo de adoçante, e comecei a fazer algumas sobremesas em casa com outro tipo de ferramentas. Entretanto, talvez esteja na altura de esclarecer que os cereais e os vegetais também têm açúcar, até porque o corpo necessita dele para funcionar, só que este é  de lenta absorção. Se não sabem o que isto significa e qual a diferença com o açúcar de rápida absorção,  cliquem aqui para ler a explicação da Associação portuguesa de dietistas .

Outra pergunta: O que andamos a fazer com o corpinho dos nossos filhos dando-lhes doces às pazadas?  Houve uma ocasião em que disse ao pai de um amigo do meu filho Pedro, que na minha casa não havia nem chocolates, nem doces nem refrigerantes e que ele (o Pedro) só comia em ocasiões especiais, e o pai olhou, condescendente, para mim e disse-me: “Coitado!”. E dei-me conta de como está instituído que gostar de uma criança é dar-lhe doces quando na verdade deveria ser o oposto.  O açúcar é terrível para os pequenitos, está associado a um sem fim de problemas, para além de dificultar muito a concentração (e já que nos preocupamos tanto no desempenho escolar, é bom pensar neste aspecto também).  A entrevista dada pela pediatra Julia Galhardo (que não é parente portuguesa da Nereida)   à revista “Visão”  é bastante esclarecedora e está aqui.

Atenção que eu sei bem as dores de cabeça que é andar pelos corredores de um supermercado à procura de alimentos sem açúcar . A secção de cereais  é, especialmente, terrível. Há cerca de uma semana andei a ver, numa loja,  todos os pacotes,  e para além de não encontrar nenhum sem açúcar adicionado ainda fiquei chocada com a obscenidade das ofertas: cereais com chocolate branco? A sério?!

E mais uma vez vos digo que é possível contornar esta situação: Compro cereais de outro tipo, sem açúcares adicionados (há nas lojas dietéticas), faço cremes de arroz , de aveia ou outros cereais  (não ponham essa cara, é super bom e nutritivo e prometo que um dia deixo aqui a receita), ou então uso pão de melhor qualidade (sem açúcar  químicos e com fermentos naturais). É mais chato, é bem verdade, mas acredito que merece a pena até porque é tudo uma questão de hábito e quando somos perseverantes e explicamos o porque das nossas escolhas é mais fácil ir convencendo o pessoal lá de casa. Para as pessoas que estão a pensar que na nossa geração comíamos disto e não nos preocupávamos tanto,  eu respondo que é verdade mas que, se tivéssemos comido menos talvez tivéssemos menos doenças ou estivéssemos menos viciados hoje em dia, mas são tudo suposições. De todas as formas a entrevista que vos deixei há pouco, da  pediatra Júlia Galhardo, também foca esse aspecto. Está, recordo, aqui.

Bom, antes de me despedir  queria dizer-vos que vale a pena lerem os artigos que vos deixo, e que não há nada melhor do que serem abertos e experimentarem. Eu própria quis tirar a teima e fiz o teste em mim, reduzindo brutalmente os doces. E  melhorei, como vos contei, em muitos aspectos. Aliás, uma das coisas mais giras que acontece quando tiramos o açúcar da nossa alimentação é que a primeira vez que o voltamos a consumir ficamos muito baralhados e é nesse momento exato que percebemos o estado letárgico e confuso em que o açúcar nos deixa.  Tentem pelo menos durante um mês, pois 30 dias é um curto período de tempo comparado com o resto da vossa vida, e parece-me o tempo suficiente para sentirem a diferença e perceberem se estão com mais energia, mais optimistas e adoecem muito menos. Vá, um mês apenas. E se o fizerem vão-me contando como está  a ser.

Entretanto, o vídeo principal  é feito pela organização “responsable food” (responsablefoods.org)