Hoje, num pequeno intervalo entre afazeres (e hoje foi um daqueles dias), fiquei presa a olhar para o chão de madeira do sítio onde estava. Esqueci o barulho envolvente, a luz do sol a entrar pela janela, o telemóvel, a quantidade louca de pessoas a quem preciso de contactar para o programa de rádio que faço todos os dias, esqueci, até, das horas. Porque naquela superfície de madeira começaram a aparecer figurinhas de pequenos seres. Fiquei fascinada com aquilo: Extraterrestres, raposas, cobras e árvores com olhos e boca. Enfim, posso, eventualmente, ter o pensamento condicionado pelo número de livros infantis que tenho lido ao meu filho Pedro, mas seja qual for a razão para aquelas criaturas terem  aparecido, o que aconteceu é que durante dez minutos da minha vida estive concentrada em: Nada. E isso foi precioso. Vivemos com uma pressão de estímulos tão grande que não concebemos o não fazer coisa nenhuma, a não ser que estejamos em pleno acto de dormir. A arte de observar, apenas, está a perder a batalha contra a permanente sedução irresistível das quinhentas mil aplicações de telemóvel e com a facilidade de se estar sempre com pessoas, mesmo não estando.

Aqueles dez minutos, esta tarde,  souberam-me a glória, de tal forma que tirei uma fotografia a aquele pedaço de chão para não esquecer que parar é tão importante como estar em movimento. Felizmente ninguém me apanhou a tirar a foto  senão teria que explicar que o meu ramo era, para além da rádio, o dos soalhos

.A ARTE DE OLHAR PARA SOALHOS

A ARTE DE OLHAR PARA SOALHOS